Impactos da pandemia na indústria automobilística

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Em entrevista ao Instituto Besc, Gustavo Bonini, diretor Institucional da Scania Latin America, fala sobre as transformações no setor

A indústria automobilística precisou se adaptar às mudanças provocadas pela pandemia, como a readequação das rotinas de trabalho nas linhas de montagem e a instabilidade da cadeia de suprimentos. Ao mesmo tempo, o novo contexto reforçou a importância do setor de transportes e logística para o Brasil. Em entrevista, Gustavo Bonini, Diretor Institucional da Scania Latin America, fala sobre as transformações na indústria, como solucionar as adversidades impostas pela pandemia,  as  tendências em inovação no mercado, sustentabilidade e como a Scania está se preparando para a retomada da economia.

  1. No atual momento de enfrentamento da crise econômica causada pela pandemia, quais são os maiores desafios da indústria automobilística?

Mesmo em meio à pandemia, o setor de transportes e logística vem tendo um papel relevante e com uma contribuição essencial para o país. Se em um primeiro momento, em 2020, houve o desafio de adaptação das linhas de montagem com readequação da rotina de trabalho que contemplou, entre outras ações, a ativação de outros turnos de trabalho com o objetivo de garantir o distanciamento social e os protocolos de saúde e segurança, o desafio atual é entender, num curto prazo, a resposta do mercado aos cenários que mudam rapidamente, decorrentes do desdobramentos da Covid-19. A rápida adaptação a este cenário, nos coloca o desafio de seguir garantindo o abastecimento das cidades e a estabilidade de nossas operações.

2. Como a pandemia afeta o comportamento do consumidor e o funcionamento dessa indústria?

A pandemia demonstrou a relevância do setor de transportes e logística para o Brasil, seja impulsionado pelos setores mais tradicionais como o agronegócio e a construção civil, ou pelo e-commerce que teve um crescimento de 75% em relação ao ano anterior, resultado decorrente do isolamento social e que consequentemente gerou maior demanda de transporte. Assim como os demais setores, todos tiveram um papel muito importante por exercerem atividades essenciais à economia, tendo garantido o abastecimento dos mais diversos insumos pelo Brasil, assim como pelo bem-estar social como no caso do e-commerce. Desta forma, ainda que os consumidores tenham passado por uma readaptação de suas rotinas e de seus deslocamentos, neste momento, foi muito necessário a eles o acesso a itens de primeira necessidade: higiene, alimentação e medicamentos. Em meio a este cenário, o agronegócio registrou crescimento de suas atividades em 2020, o que ajudou o setor de transportes a também se alavancar.

3. Como a falta de insumos impacta o setor automobilístico?

O setor automotivo tem plena capacidade de seguir crescendo e apoiando outras atividades essenciais da economia, mesmo diante da pandemia. Porém, cabe ressaltar que a instabilidade da cadeia de suprimentos é o desafio a ser superado neste momento para que possamos manter as nossas operações industriais sem desvios. Já vencemos a etapa inicial, quando todos os setores retomaram as atividades ao mesmo tempo, gerando um descompasso no fornecimento de matéria-prima e insumos. Acredito que estamos no meio desse movimento de estabilidade, mas ainda há riscos e estamos trabalhando de perto com nossos fornecedores para não gerar impacto na entrega de veículos para os clientes.

4. Existe alguma forma de solucionar esse problema?

A cadeia de suprimentos e insumos está se adequando a este novo momento, mas é uma grande engrenagem que repentinamente precisou parar e retomou com muita força. Estamos com um olhar positivo para a estabilidade, mas com ressalvas até que o descompasso entre a demanda e a cadeia de suprimentos seja equilibrado. As empresas têm trabalhado de perto com seus fornecedores, acompanhando e monitorando os volumes, mas risco é eminente até que o problema esteja totalmente equacionado.

5. No que se refere à utilização das novas tecnologias na indústria automobilística, quais as maiores tendências em inovação no mercado?

Vemos na Scania a tecnologia como uma aliada para um objetivo de longo prazo, que é a descarbonização do setor de transporte e logística. Na realidade, ela já vem nos ajudando a tornarmos esse objetivo cada vez mais uma realidade, um exemplo disso, é a tecnologia para uso de biometano para veículos pesados, combustível produzido a partir do uso de resíduos orgânicos, como do agronegócio.

O Brasil tem vocação para o biometano e uma grande oportunidade de transformar seu passivo ambiental em um ativo energético em substituição ao diesel.

Em nossas operações, a digitalização já é uma realidade e a inovação está no dia a dia dos nossos colaboradores, parte essencial nesta transformação. Recentemente inauguramos uma fábrica com 75 robôs conectados, todos trabalhando em sinergia com nossos colaboradores, que foram capacitados e trainados para esta interação.

Além disso, atingimos a marca global de 500 mil veículos conectados ao redor do mundo, proporcionando informação em tempo real aos nossos clientes e motoristas, permitindo tirar o máximo de nossos produtos quando estão em operação.

A tecnologia é um caminho sem volta, assim como a sustentabilidade, e continuaremos investindo e se mantendo na vanguarda do nosso setor.

6. Como a sustentabilidade deve ser integrada à indústria automobilística?

Somos parte de um setor que é responsável por aproximadamente 14% das emissões de CO2 do planeta, isso significa que somos parte de um problema, mas decidimos também ser parte da solução ao inserir a sustentabilidade no centro de sua estratégia de negócios, adotando um conceito chamado Driving the Shift, que tem o objetivo de impulsionar a mudança para um ecossistema de logística e transporte mais sustentável, criando um mundo de mobilidade que seja melhor para a sociedade, para o meio ambiente e para os negócios.

Em 2020, nos tornamos a primeira fabricante de veículos comerciais do mundo a ter as metas climáticas aprovadas pelo Science Based Target Initiative (SBTi), devemos reduzir, até 2025, 50% a emissão de CO2 nas operações e de reduzir a emissão de CO2 da frota circulante de 1 ano de seus produtos em 20% durante o mesmo período, tendo como ano base 2015.

Pelo pioneirismo de assumir este compromisso, temos sido reconhecidos como uma empresa engajada no tema da sustentabilidade. Cada vez mais, enxergamos um transporte pautado por um distanciamento das energias não-fósseis, por energias cada vez mais limpas.

6. Como a Scania está se preparando para a retomada da economia?

Somos parte de um setor essencial para economia, o de transportes e logística, e acreditamos no potencial da região, o que temos demonstrado com investimentos contínuos em nossas operações na América Latina. Em 2020, encerramos um aporte que totalizou R$ 2,6 bilhões que contemplou a introdução de uma nova geração de caminhões, a industrialização dos veículos a gás no Brasil e o desenvolvimento de nossas fábricas dentro dos conceitos de Indústria 4.0.

Em 2019, confirmado em 2020, anunciamos um novo ciclo de investimentos de R$ 1,4 bilhão, mesmo com a pandemia. O objetivo segue sendo direcionar esse investimento para a modernização da fábrica em São Bernardo do Campo e para as demais operações da empresa no país, com foco em novas tecnologias, digitalização e para o desenvolvimento de produtos, como as próximas etapas dos caminhões movidos a gás, que começaram ser produzidos no país no início de 2020. O montante será investido até 2024. A pandemia não alterou nenhum planejamento neste sentido.