Novos projetos e atos de governo aumentam demanda por RIG no Brasil, analisam especialistas

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Categoria: Webinar

Juliana ScarduaÍntegra Comunicação Estratégica, especial para o Instituto Besc de Humanidades e Economia

A apresentação de novos projetos durante a pandemia encorpa a produção legislativa no Brasil, em todas as esferas, municipal, estadual e federal. Mas como acompanhar, com consistência e de forma estratégica aos negócios, aquilo que está sendo proposto por nossos representantes constituídos? O papel de profissionais de relações institucionais e governamentais (RIG) junto a segmentos econômicos, empresas e instituições se revela determinante neste momento, em meio ao enfrentamento dos efeitos da pandemia.

Levantamento feito pelo Radar Governamental, serviço de monitoramento e inteligência governamental, revela que as Assembleias Legislativas registram uma crescente de 76% no número de projetos apresentados no primeiro semestre de 2020 em relação ao mesmo período do ano passado. Conforme aponta a plataforma, na escala da produção legislativa municipal, alta de 34% no comparativo, ao passo que na esfera federal o volume de projetos cresceu 25%. Os dados foram apresentados em webinar da Assembleia Permanente pela Eficiência Nacional, articulada pelo Instituto Besc de Humanidades e Economia, sob o tema Relações Institucionais e Governamentais no Ambiente do Transporte e da Logística.

O painel de monitoramento do Radar Governamental também sinaliza que houve um crescimento de 106% no conjunto de atos expedidos pelo Poder Executivo nos municípios. No Executivo estadual, a alta chega a 145%, impulsionada, entre outros fatores, pelos decretos envolvendo o combate à proliferação do novo coronavírus. O governo federal é o único a registrar queda no volume de leis sancionadas e portarias e comunicações emitidas no período de janeiro a junho, com uma redução de 23% em relação ao mesmo período de 2019.

“Os brasileiros elegeram em 2016 um total de 1.059 deputados estaduais, 27 governadores, 5.570 prefeitos e 57.933 vereadores. Aí a gente pensa: ‘Alguma coisa esse pessoal precisa estar fazendo. A gente não tem toda essa turma lá para nada’. O que nós destacamos: Alguma coisa eles estão regulamentando, e isso impacta a nossa vida, diretamente”, observa Juliana Celuppi, CEO do Radar Governamental e sócia-diretora do Celuppi Advogados.

Para Carolina Amaral Venuto, presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), o monitoramento das proposições legislativas e atos de governo se une à importância estratégica da compilação de dados consistentes, a serem endereçados por organizações aos tomadores de decisão ocupantes de cargos públicos. Tarefa extra a empresas e entidades representativas. “Estamos enfrentando uma crise sem precedentes e é muito importante que os setores levem informações qualificadas, que informações adequadas cheguem aos gestores públicos para que as políticas públicas sejam eficientes”.

De acordo com a especialista e líder setorial, percebe-se grande evolução nas estratégias de advocacy no Brasil, incluindo ações integradas de lobby, comunicação e estreitamento relacional entre entidades com interesses afins. Caminho de amadurecimento em boas práticas nas relações institucionais e governamentais das mais diferentes marcas no mundo dos negócios. “Todo mundo faz lobby no país hoje e as instituições e setores precisaram também aprender novas maneiras de afetar e fazer incidência naqueles que estão decidindo por eles. Num mundo caótico, isso também traz empoderamento à sociedade em voz ativa e qualificada”, destaca Carolina Venuto.

Essencial – Rodrigo Navarro, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), salienta que a performance e o perfil dos profissionais de relações institucionais e governamentais (RIG) passa por uma trajetória de transformações nas últimas três décadas, intensificada nos últimos cinco anos. E agora, em plena pandemia, disrupções numa nova onda de mudanças comportamentais são ditadas pela intensificação do uso de ferramentas tecnológicas. O tradicional corpo-a-corpo agora é online e o monitoramento e cruzamento de informações e mapeamento de tendências contam com sofisticados softwares e outras soluções em inteligência artificial.

À rede de relacionamentos, essencial à atividade de RIG, se somam o valor gerado pela experiência e pela competência. “Abrir portas era percebido como valor a ser contratado. O network continua sendo importante, mas a ele foi agregado a experiência. Hoje, experiência não quer dizer idade: quer dizer o que você fez com o tempo que você tem. A isso damos o nome de competência”, pontua Navarro.

Regulamentação do lobby – Os esforços dos diferentes setores econômicos em reivindicar à esfera pública e receberem o mais rapidamente medidas favoráveis ao enfrentamento dos efeitos da pandemia também avivam uma discussão especial no universo das relações institucionais e governamentais: a regulamentação da atividade do lobby no Brasil.

Mais modernamente chamada de advocacy, essa prestação de serviços tem suas origens no século 17 e tem como maior referência mundial os Estados Unidos. Para o professor Rodrigo Navarro, debater RIG de forma profissional, afastando os preconceitos e estigmas que pairam sobre o universo do lobby no Brasil, é tão essencial como o avanço do país em pautas fundamentais como o saneamento, que teve o projeto do novo marco legal sancionado pela Presidência da República nesta quarta-feira (15).

“Estamos falando de um marco regulatório importante ao momento. Estamos no meio da Covid-19, em que milhões de pessoas não têm água para lavar as mãos. Isso nos remete ao que chamo de confort no mundo do RIG: temos que conduzir as discussões com conteúdo, forma e atentos ao timing. Às vezes a gente esbarra em ideologia, o que faz parte do jogo, do processo. Por isso é preciso agregar dados. O timing é, neste momento, propício à logística, à construção civil, à geração de empregos, a setores determinantes para viabilizar infraestrutura ao grande potencial produtivo nacional”, avalia.